Amar como Cristo nos amou

Acabámos de regressar da nossa missão em Angola (ver página 5) para onde fomos com alguns jovens e a Irmã Maria Mãe da Igreja. Inicialmente, era suposto irmos para a Província do Moxico, no Nordeste do País, mas o nosso voo foi cancelado. Três leigas da Madeira estavam de visita a um orfanato gerido por uma mulher consagrada, a Irmã Domingas, e convidaram-nos a ajudá-las, uma vez que havia tantas crianças. Assim, aceitámos o desafio e redireccionámos o nosso serviço para o orfanato.

No nosso primeiro dia, a Irmã Domingas apresentou-nos a “Casa da Criança Santa Isabel”. Contou-nos que a fundou há trinta anos. Eram anos de guerra civil. Alguns homens armados mataram um casal, deixando os filhos sozinhos. A mãe da Irmã Domingas acolheu-os em casa. Cuidaram daqueles quatro irmãos e, depois, vieram outros. Para cuidar do número crescente de crianças órfãs e abandonadas, a Irmã Domingas teve de abandonar o plano de seguir a vida religiosa na Congregação das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena.

Recebeu uma doação de terreno e dinheiro para construir uma casa para as crianças. Mais tarde, percebeu a necessidade de construir uma escola e proporcionar-lhes educação. Hoje, conta com uma equipa de leigos, a maioria dos quais se formou no programa “Casa da Criança”. Enquanto lá estivemos, a Casa acolheu uma nova menina, de oito anos de idade, a Naomi, elevando o total para duzentas crianças e adolescentes residentes.

A Irmã Domingas está a envelhecer, mas está cheia de amor e de vida. Conhece o coração e a história triste de cada criança do orfanato. Cuida delas, ouve-as e espera que tenham um futuro brilhante. Acima de tudo, fala-lhes do amor de Jesus, que nunca as abandonará. Ensina-as a rezar e a honrar o Senhor com as suas vidas. As mais velhas cuidam das mais novas. Há uma creche com cerca de quinze crianças. Dois dias antes de partirmos, acolheram a Elsa, uma menina de dois meses.

O que levou a Irmã Domingas a dedicar toda a sua vida àquelas crianças que não eram seus familiares? O amor de Cristo, o mandamento que Ele deu aos seus discípulos: «Amai-vos uns aos outros, como Eu vos amei» (Jo., 15, 12).

Temos uma dívida para com o próximo, a dívida de o amar, e este é o caminho, diz Ele, para cumprir a Lei. Ele fala aqui de amor verdadeiro, o amor que vem do coração de Cristo, como nos ensinou Santa Catarina de Sena, a dívida de amor que temos para com o próximo: “Quero também que saibas que toda a virtude é obtida por meio do teu próximo, e, da mesma forma, todo defeito. E deste modo a caridade é exercida: és obrigado a amar o teu próximo como a ti mesmo e, amando-o, deves ajudá-lo espiritualmente, com a oração, aconselhando-o com palavras e assistindo-o tanto espiritual quanto temporalmente, de acordo com a necessidade em que ele se encontre. A ele [ao próximo] prejudica quem não lhe paga a dívida de amor que lhe deve, com a qual deveria ajudá-lo por meio da oração e do santo desejo oferecido a Mim por ele” (in Diálogo – Tratado da Divina Providência, capítulo 60).

Na Segunda Leitura deste Domingo, São Paulo também nos exorta: «Não devereis nada a ninguém, a não ser o amor mútuo; pois quem ama o próximo cumpriu a lei» (Rm., 13, 8).

A Igreja que Jesus edificou sobre os pilares dos Apóstolos e sobre a rocha de Pedro é uma comunidade de amor, onde devemos a nossa preocupação e cuidado aos nossos irmãos e irmãs, até ao ponto do perdão e da correção mútuos. Uma verdadeira comunidade eclesial, uma família cristã, é um lugar de crescimento e purificação. Leva-nos a enfrentar as nossas imperfeições e vulnerabilidades. Amar como Cristo nos amou implica dar-nos inteiramente, oferecendo os nossos corpos como sacrifício espiritual por causa do Evangelho, por causa de Cristo, que está presente naqueles que sofrem, nos marginalizados e nos excluídos.

A Irmã Domingas e toda a sua equipa, que cuidavam das crianças, ensinaram-nos essa lição: amar Cristo incondicionalmente naqueles que sofrem é uma fonte de graça transformadora e de alegria.

Pe. Eduardo Emilio Agüero, SCJ