A Centralidade do Perdão na Vida Cristã

O Evangelho deste Domingo trata de um dos assuntos mais exigentes do Cristianismo: o Perdão. Para isso, Jesus responde à pergunta de Pedro sobre quantas vezes devemos perdoar com uma parábola. Na verdade, este Evangelho ensina-nos a viver autenticamente a oração do Pai Nosso e a receber o perdão de Jesus, pois pedimos a Deus que nos perdoe na medida em que perdoamos os outros. Devido à centralidade da temática para vivermos a nossa fé, vamos meditar o texto com atenção.

Havia um servo que devia uma quantia impagável, e a sua vida e a da sua família estavam em risco por falta de pagamento. Poderíamos imaginar a Humanidade que, devido ao seu pecado, estava condenada à morte eterna e afastada da glória de Deus. A nossa dívida era enorme, impossível de ser quitada com as nossas próprias forças. O texto continua e diz que esta dívida foi perdoada. Naturalmente, aqui pensamos em Jesus, que pagou a nossa dívida com o seu sangue derramado na cruz. Ele nos redimiu não porque o merecêssemos, mas porque é infinitamente misericordioso.

O texto relata que este empregado, que recebeu um grande perdão, não queria perdoar um dos seus companheiros que lhe devia uma quantia irrisória em comparação àquela que lhe foi perdoada. Sem grande esforço, aqui imaginamos cada um de nós que não perdoa os erros daqueles que nos ofenderam. Geralmente usamos uma racionalização aparentemente justificável para não perdoar: ele não merece, já perdoei outras vezes, ele não muda de vida, ele não foi justo comigo. Tudo isto pode ser verdade, mas o ponto principal do texto é que fomos perdoados infinitamente por Deus – um perdão muito maior do que aquele que somos chamados a oferecer.

Claro que é difícil perdoar. Costumo dizer que perdoar é amar e dói. Às vezes parece até sangrar. Contudo, isso traz-nos paz e liberdade, uma leveza na alma e, principalmente, a certeza de que seremos perdoados por Deus, a maior de todas as graças que podemos pedir, pois somente assim alcançaremos a vida eterna. Irmão, não perdoamos porque gostamos, achamos justo ou sentimos vontade. Perdoamos porque queremos ser salvos, fiéis ao Senhor e ter paz no coração. O perdão é um grande sinal de uma fé madura e sólida, traduzida em acções concretas. Não é um sentimento, mas uma decisão consciente de deixar ir a mágoa e de oferecer ao outro o que recebemos de Deus.

Novamente, perdoar é muito difícil. Santa Teresa d’Ávila dizia que é justo que custe muito o que vale muito. O perdão ao outro, que custa muito, vale o perdão de Deus para connosco. Penso que vale o sacrifício ou até a humilhação. Quando perdoamos, morremos um pouco para o nosso ego, para o nosso desejo de justiça terrena, para a nossa sede de vingança. Mas essa morte pequena traz-nos uma vida muito maior. Perante esta dificuldade, termino propondo alguns passos concretos para aqueles que desejam crescer na virtude do perdão.

Primeiro, o perdão não é um gosto, mas uma graça divina. Peça esta graça a Deus. Reconheça que não consegue perdoar sozinho. Dirija-se a Ele em oração e peça-lhe a força necessária para este acto de amor e fé. Deus nunca nega a graça a quem a pede com sinceridade.

Segundo, perdoar não significa esquecer nem concordar com a atitude do outro. Podemos perdoar sem aceitar o errado como certo. Perdoar é libertar a pessoa da condenação que carregamos contra ela no nosso coração. Não é uma aprovação dos seus actos, mas uma libertação da nossa própria amargura.

Terceiro, comece com pequenos passos. Reze pela pessoa que o ofendeu. Como irmãos em Cristo, queremos a conversão e salvação também do outro. A oração abre-nos o coração à compaixão. Quando rezamos por alguém, é difícil manter o ódio. A oração transforma tanto quem reza quanto quem a recebe.

O perdão é um caminho árduo, mas necessário para quem deseja seguir verdadeiramente a Cristo. Não é fácil, mas é possível com a graça de Deus. Cada vez que perdoamos, tornamo-nos mais semelhantes a Jesus, que perdoou aqueles que o crucificavam. Cada acto de perdão é um testemunho vivo da nossa fé e um sinal de esperança para um mundo que tanto precisa de reconciliação. Pense sobre isto e mãos-à-obra. Que Deus nos dê a coragem e a graça necessárias para perdoar como fomos perdoados.

Padre Daniel Ribeiro, SCJ