Papa apela à intervenção dos católicos perante as injustiças
O Papa alertou para as contradições de um mundo que promove a guerra com a justificação de «construir a paz», tendo apelado ao compromisso dos católicos em favor da justiça.
«Há uma consciência partilhada de que está em jogo o futuro do planeta e, ao mesmo tempo, a incapacidade de renunciar ao consumo egoísta e à ilusão de que a guerra é uma forma eficaz de construir a paz», disse na Audiência Pública semanal das quartas-feiras, que decorreu na Praça de São Pedro.
Leão XIV iniciou um ciclo dedicado à Constituição Pastoral Gaudium et spes, do Concílio Vaticano II, sobre «a relação da Igreja com o mundo contemporâneo».
«É uma partilha que nos chama a sair de toda a passividade e indiferença perante os acontecimentos, a história e a vida das pessoas, sobretudo perante a mudança rápida e profunda que hoje experimentamos», apontou aos participantes na Audiência Geral.
Segundo o Papa, o documento conciliar não reflecte um «ingénuo optimismo», mas traduz uma «renovada fidelidade ao Mistério de Cristo», que encarnou para partilhar as tristezas e esperanças da condição humana.
«A partilha cristã compromete a assumir a realidade e também a desmascarar as contradições que caracterizam a vida pessoal e social do mundo contemporâneo: por exemplo, um progresso científico e tecnológico, que oferece sempre novas possibilidades, mas apenas a alguns», sustentou.
Leão XIV apontou o desafio de servir o Ser Humano face aos «preocupantes desequilíbrios» globais, assinalando Jesus Cristo como «a chave, o centro e o fim de toda a história humana».
«Caros irmãos e irmãs, que a alegria e a esperança – gaudium et spes – sejam os traços distintivos de uma Igreja que anuncia e testemunha o Evangelho, fazendo-se próxima das mulheres e dos homens do nosso tempo», desejou o Santo Padre.
Após a Catequese, o Papa deixou uma saudação aos peregrinos de língua portuguesa provenientes de Portugal e do Brasil, aos quais garantiu que nenhuma das suas «legítimas aspirações» escapa «à atenção e ao cuidado pastoral da Igreja».
GUERRA: ALERTA JÁ ANTES FEITO
O Papa já havia afirmado, a 20 de Agosto, por ocasião da publicação da mensagem para o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação 2026 (celebrado no dia 1 de Setembro) que a guerra deixa «uma destruição social e ecológica que perdura gerações», feridas que «danificam todo o tecido da vida».
«Hoje, testemunhamos muitas crises e muito sofrimento humano. Parece, ao mesmo tempo, que a perturbação do equilíbrio harmonioso da criação está a acelerar. Estes fenómenos não deixam de estar relacionados: constituem um único apelo à cura e à paz, proveniente dum mundo ferido».
Na referida mensagem, o Pontífice salienta que a guerra “deixa feridas que vão muito além do campo de batalha”, porque ceifa vidas, separa famílias, e obriga “milhões de pessoas a fugir para longe dos seus lares”, aumenta “o medo, a injustiça e a divisão”, e deixa “uma destruição social e ecológica que perdura por gerações”.
Leão XIV explica que a guerra “cria feridas que danificam todo o tecido da vida”, prejudica as pessoas e as comunidades, mas também a sua rede mais ampla de relações “com a inteira família humana e a sua harmonia com a criação”, o que revela uma “incapacidade ainda maior de viver à imagem e semelhança de Deus, de respeitar a vida e de cuidar da terra”.
O apelo profético no tema desta jornada de oração é também um chamamento individual que convida “a transformar o mal em vida”, e exige, “em colaboração com a graça de Deus, uma conversão pessoal e colectiva mais radical”.
O Papa reconhece que os desafios são enormes, mas “Deus não deixa sem os meios para a cura e a transformação”, e concede “a força para curar, reconciliar e construir uma civilização do amor”, e para salvaguardar os ecossistemas da criação, das relações humanas e do próprio coração humano.
O Santo Padre convida a imaginar um mundo que canalize as energias que investe na guerra no “desenvolvimento humano integral, a superação da pobreza, a protecção da dignidade humana e a reconciliação entre os povos”, porque as verdadeiras ferramentas para construir a paz são “a verdade, o diálogo, a paciência, a bondade, a justiça, a misericórdia, a compreensão, o cuidado e o amor”, e não as armas de destruição.
No Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação foi iniciada a celebração ecuménica e ecológica do “Tempo da Criação”, que este ano tem como tema “Água Viva”, do livro de Ezequiel (47, 9, 12.) e que termina a 4 de Outubro, data da Festa de São Francisco de Assis.
In ECCLESIA – texto editado

