«Sinto que em Macau estamos num sítio protegido»

D. Américo Aguiar, cardeal e bispo de Setúbal, com responsabilidades no Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida (Santa Sé), esteve de passagem por Macau na passada sexta-feira, 11 de Setembro. Entre outras personalidades, reuniu com D. Stephen Lee. Do prelado recebeu a garantia de que os jovens que se deslocarem a Seul, a fim de participarem na Jornada Mundial da Juventude de 2027, serão acolhidos pela diocese de Macau no período denominado “Os Dias das Dioceses”. Em entrevista a’O CLARIM, D. Américo falou sobre a relação entre os bispos portugueses e a Igreja em Macau, dos anseios e da mensagem global do Papa Leão XIV, e ainda acerca do modo como o tempo secular deve ser encarado por cada católico, no contexto em que habita.

O CLARIM – Foi presidente da Fundação JMJ Lisboa 2023 e é a segunda vez que visita Seul. Em que a Igreja em Portugal está a ajudar a Igreja na Coreia para a preparação da Jornada Mundial da Juventude?

D. AMÉRICO AGUIAR – Primeiro é oportuno lembrar a relação que tivemos nós, organizadores de Lisboa, com a Igreja do Panamá, ou seja, há uma tradição, uma feliz tradição, do anterior comité organizador estar disponível para ajudar o comité organizador seguinte. Tivemos uma relação muitíssimo próxima com aquilo que foi a experiência do Panamá 2019 para a realização da Jornada de Lisboa, que ia ser em 2022, mas depois, por causa da pandemia, passou para 2023. E desde que tivemos a indicação de que o próximo organizador seria Seul, que por via do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida temos tido uma relação próxima com a Arquidiocese de Seul, com os organizadores da Jornada de 2027. Tem acontecido através de vários encontros, recorrendo ao que as tecnologias hoje nos permitem, mas também pessoalmente. Em Dezembro do ano passado estivemos em Seul, em encontros com os vários grupos preparatórios da Jornada e temos tido uma relação muito próxima, permanente, para tentarmos responder àquilo que são as dúvidas pontuais de quem está agora com a responsabilidade de organizar a Jornada. Agora vai-se realizar nos próximos dias um segundo encontro internacional – o último – que costuma acontecer antes da Jornada. É muito importante porque estarão presentes representantes de todas as conferências episcopais do mundo, que vão fazer as perguntas do costume. Onde é que vai ser o alojamento? Como é que vai ser o transporte? Como é que vai ser a alimentação? Onde é que é isto? Onde é que é aquilo? Digamos que é uma prova de fogo para a organização…

CL – Em que dias, concretamente?

D.A.A – Vai ser agora, neste fim-de-semana, de 14 a 17 de Setembro.

CL – Sabemos que a Conferência Episcopal Portuguesa pediu a D. Stephen Lee que a diocese de Macau acolhesse os “Dias nas Dioceses”. O pedido foi aceite? Pode-nos confirmar?

D.A.A – Sim, estamos muito felizes. Primeiro, porque é muito importante para nós. Deus providenciou, o Espírito Santo nos soprou, o termos colocado o sonho: “E, por que não, os jovens portugueses fazerem uma estação em Macau antes de Seul?”. E, já que sonhámos, fizemos as perguntas. A primeira questão era saber se a diocese de Macau estava interessada, se facilitava, se achava bonito. E fomos acolhidos de braços abertos. Agradeço muito ao Senhor Bispo aquilo que nos transmitiu, assim como ao Colégio Diocesano de São José, à Universidade de São José e à Santa Casa da Misericórdia de Macau. Podemos estar a falar de seiscentos, setecentos ou oitocentos jovens portugueses, que estarão cá nos últimos dias de Julho de 2027 e depois rumarão a Seul. É muito importante porque para muitos jovens portugueses já não existe memória daquilo que foi a ligação histórica de Macau com Portugal. E por isso esta é uma oportunidade de ouro para recolocarmos no coração dos jovens portugueses esta identidade e esta ligação com Macau. Será para eles inesquecível viverem esta experiência.

CL – O tema da JMJ de Lisboa foi “Maria levantou-se e partiu apressadamente”. Em Seul é “Tende coragem: Eu venci o mundo”. Em Lisboa, o Papa Francisco deixou a mensagem de “Todos, Todos, Todos”. Que mensagem nos deixará o Papa Leão XIV em Seul?

D.A.A – Pois vamos ter que esperar! Mas acima de tudo, as Jornadas – e estamos a falar de um evento já com mais de quarenta anos – são sempre uma sequência. É bonito olharmos para o Panamá, cujo tema foi “Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”. Depois Lisboa, “Maria levantou-se e partiu apressadamente”. E agora estas palavras de Jesus tão fortes: “Tende coragem: Eu venci o mundo”. É muito importante que tenhamos consciência que a Jornada, como dizia o Papa Francisco, é um triplo encontro. A Jornada é sempre um encontro dos jovens, de uns para com os outros. É muito significativo que os jovens façam de vez em quando uma experiência de grande multidão católica, porque os jovens não têm essa experiência; julgam sempre que são uns pouquinhos. E quando têm uma experiência de encontro mundial, digamos que recarregam baterias para serem eles próprios evangelizadores. É um encontro com o sucessor de Pedro. Esta Jornada tem um gosto especial: Colónia 2005 era para ser a Jornada do Papa João Paulo II, não foi; foi presidida por Bento XVI. A Jornada do Rio de Janeiro era para ser a de Bento XVI, não foi; foi presidida pelo Papa Francisco. Seul era a Jornada do Papa Francisco; vai ser presidida pelo Papa Leão XIV. Ora, as Jornadas também nos ajudam a entender a apostolicidade da Igreja. Para os jovens é muito significativo E tem sempre esta marca de ser a primeira Jornada com o Papa A ou com o Papa B. Temos esta graça de fazer um convite alargado a todos, todos, todos os jovens, independentemente daquilo que são os seus caminhos, as suas histórias, os seus países, a sua proveniência; e depois a fazerem uma experiência do encontro com Cristo vivo. A Jornada poderá significar muito para muitos deles, no seu coração e na sua relação com Cristo. Alguns conhecem Cristo, outros não conhecem, outros vão conhecer, e pode ser que nos corações aconteça muita coisa.

CL – A diocese de Macau pertenceu à Conferência Episcopal Portuguesa até 1999. A partir da transferência de Macau para a China deixou de pertencer, embora se mantenham contactos. De que modo a CEP, ou seja, os bispos portugueses, as diferentes dioceses de Portugal, olha hoje para a diocese de Macau, ainda para mais agora, quando se comemoram os seus 450 anos?

D.A.A – Primeiro, uma declaração pessoal. Eu ainda tive a graça de conhecer D. Arquimínio Rodrigues da Costa [o último bispo português de Macau]. Eu, como seminarista, fui aos Açores, e fui à ilha onde ele estava e gostei de o conhecer e das histórias que contou, porque para nós, Macau, era qualquer coisa longínqua no mapa e também na história. Depois, lembro-me perfeitamente de ouvir e de acompanhar D. Domingos Lam, o seu sucessor, o primeiro bispo chinês de Macau. Como disse, até ao fim da década de 90 houve essa relação. Aliás, até existiu o Seminário da Diocese de Macau, em Lisboa. Actualmente, há esta nova realidade que não conhecemos directamente, mas que acompanhamos com muito carinho. Ainda agora aqui cheguei e é emocionante entrar na Sé Catedral e ouvirmos rezar o Terço em Português. É muito emocionante, é sempre uma experiência única para aquilo que é a nossa vivência. Agrada-me ter ouvido por parte das autoridades chinesas – penso mesmo que foi o Presidente da China – o que significa Macau enquanto plataforma de encontro com Portugal, com a língua portuguesa e com os países de língua oficial portuguesa. Que neste ponto do mundo haja um local de encontro de culturas, de línguas, e se reze e pense em Português, é único!

CL – O exemplo máximo da ligação entre a Igreja em Portugal e a Igreja em Macau é o facto de ter sido criada a Universidade de São José – uma parceria da diocese de Macau com o Patriarcado de Lisboa, via Universidade Católica Portuguesa. Que outras parcerias a Conferência Episcopal Portuguesa, os seus diferentes bispos, gostariam de estabelecer com Macau daqui para frente?

D.A.A – Tudo o que possa fortalecer esta ponte, este ponto de encontro, esta plataforma de encontro, deve ser possível de ser feito. Se estamos a afirmar que Macau pode ser uma porta de entrada para a nossa cultura, para a nossa vivência, para o Ocidente, o contrário também pode acontecer. De facto, a Universidade de São José é muito importante, pois significa exactamente isso. Há um ponto de encontro, nomeadamente o acordo entre Portugal e a China, que possibilitou a existência da Universidade de São José. Visitei hoje, pela primeira vez, a Universidade e o Colégio de São José, e fiquei muito feliz pela vivência e, principalmente, por ver materializada a tal plataforma de encontro de que falávamos ainda há pouco.

CL – É bispo da diocese de Setúbal, que retrato muito breve faz da diocese que lidera neste momento?

D.A.A – É uma diocese jovem. Se aqui em Macau estamos a celebrar os 450 anos, já Setúbal celebrou os cinquenta… Portanto, temos uma diferença de quatrocentos anos. É uma diocese jovem; é um território muito especial, porque é vizinho da capital [Lisboa], com as coisas boas e as coisas más que o vizinho da capital normalmente tem, nomeadamente no que respeita aos custos da habitação. A diocese de Setúbal já quase ultrapassa um milhão de habitantes, sendo 25 por cento migrantes, pelo que há também diversidade populacional. É uma diocese ainda em construção, pois cinquenta anos não é nada quando comparado com 450. Tem muitos desafios, tem muita gente nova. Quando visitei a diocese de Setúbal pela primeira vez fiquei admirado com a comunidade académica universitária. Não fazia a mínima ideia de que a Universidade Nova de Lisboa, o Instituto Politécnico, o Instituto Universitário Egas Moniz e o Instituto Piaget totalizavam quase dezoito mil alunos. E quanto a empresas, não sabia que a fábrica da Coca-Cola, a Navigator e a Secil são em Setúbal, já para não falar da Autoeuropa, da Volkswagen. Ou seja, cinco das maiores empresas de Portugal têm a sua sede e a sua realidade na diocese de Setúbal. Qual é aqui o grande desafio? É que a população sinta o retorno da presença destas empresas, em termos de qualidade de vida, de saúde, de educação, de habitação, dos transportes, da mobilidade; enfim, que as pessoas, no quotidiano da sua vida, sintam o retorno disso. Hoje em dia a Diocese tem muitos desafios, há muita coisa a fazer, é preciso arregaçar mangas e trabalhar.

CL – Esteve no último Conclave. Do contacto que teve com o agora Papa Leão XIV, como é que o descreve?

D.A.A – É uma sensação participar no Conclave; foi a primeira vez e é qualquer coisa de único. Aquele bater da porta extra-omnes…, aquilo estremece-nos. Depois é muito interessante: até à data, na minha vida, tinha sempre celebrado e rezado pelo Papa que a Igreja nos dá, que Deus nos dá. Agora, comecei-me a habituar ao Papa que eu escolhi, que eu elegi. É preciso fazer aqui uma conversão. O mais divertido do Conclave é o momento em que se pergunta o nome e o cardeal eleito diz o nome adoptado. Quando o Papa disse “Leão”, houve um burburinho. Ninguém estava à espera. Ninguém estava à espera que fosse “Leão” – Leão XIV. Ouvimos o Papa explicar a sua ligação umbilical a Leão XIII, a Revolução Industrial. Leão XIV é a Revolução Digital. Sentimos que é um desafio enorme o caminho que a Igreja tem de percorrer. Aliás, vimo-lo agora, com a Magnifica humanitas, a primeira Encíclica do Papa, qual é o caminho que temos de percorrer.

CL – Pode-se esperar uma revolução ou, pelo menos, uma revisão da Doutrina Social da Igreja com este Papa?

D.A.A – Não! O que o Papa nos pede é que saibamos o que diz a Doutrina Social da Igreja. Por vezes, enchemos a boca com a Doutrina Social da Igreja, mas se formos perguntar às pessoas em que consiste, elas gaguejam. Na Magnifica humanitas, o Papa diz que o importante é reflectir sobre a realidade. Há cem anos, a população, os nossos irmãos que cá viviam, ficaram atordoados com a máquina a vapor. Porquê? Porque dispensou as pessoas de muitas tarefas. O que demorava dias a fazer, passou a horas. O que significava percorrer quilómetros, passou a metros. Muitas pessoas foram dispensadas e foi necessário organizar a vida de outra maneira. Foi uma fractura, uma dor de crescimento. Hoje estamos no mesmo registo, na dita revolução digital, que nos diz o quê? Diz que os processos podem ser diferentes e que as pessoas podem ser dispensadas desses processos. Então, o que fazemos? Como vai ser o mundo? Como vai ser o futuro? A Inteligência Artificial, o bem e o mal, todas estas coisas que nos envolvem…, como é que fomos educados para isso? Este é o desafio que temos em mãos. Acredito profundamente que a Magnifica humanitas faz uma actualização, pura e dura, dos desafios que o mundo hoje nos coloca, levando-nos a encará-los de acordo com a Doutrina Social da Igreja.

CL – Para terminar, que mensagem gostaria de deixar aos católicos de Macau, nomeadamente à comunidade católica que fala Português? Não só aos portugueses, mas também às outras comunidades de Macau que falam Português…

D.A.A – Façam uma mescla de saudade com esperança. Não conheço a realidade, mas acredito que para muitos irmãos e irmãs haja uma saudade de um tempo que foi Macau. E o que eu lhes peço é que essa saudade seja convertida na esperança do tempo que vem. Porque é assim, é olhar para a frente. Há um poeta de Setúbal, chamado Sebastião da Gama, que diz: “Pelo sonho é que vamos”. E é exactamente assim que tem de ser. O tempo que estamos a viver, é o tempo que nos é dado viver. O mundo está complicado com as guerras, com os conflitos, com as economias. Até sinto que em Macau estamos num sítio protegido; não sei porquê, mas sinto que aqui estamos protegidos. Acima de tudo, mesclemos saudade – uma coisa tão nossa, mas que por vezes é mórbida – com esperança nos tempos que aí vêm. E todos, nomeadamente os jovens, que se sintam protagonistas desse futuro. O Papa Francisco dizia, em relação às Jornadas Mundiais da Juventude, que os jovens tivessem coragem de voltar a sonhar. E é isso que nós temos que colocar no coração dos nossos concidadãos: a coragem, a vontade, o desejo de sonharem, porque é pelo sonho que caminhamos.

José Miguel Encarnação