A ameaça representada por Crescêncio II: João XV e Gregório V

JOÃO XV

(VIII.985 – III.996)

O Papa João XV, 137.º Bispo de Roma, ascendeu ao Papado em Agosto de 985 com o apoio do poderoso nobre romano João Crescêncio II, na sequência de um período violento e instável que incluiu a destituição do Papa João XIV e o breve reinado do usurpador Bonifácio VII. Crescêncio II, no entanto, não era um governante benevolente. Na verdade, controlava e oprimia o Pontífice e, frequentemente, exigia um suborno antes de permitir que as pessoas tivessem acesso ao Papa.

Aos seus problemas juntou-se o atrito com o rei francês Hugo Capeto devido à destituição ilegal do arcebispo Arnulfo de Reims. Em 988, o rei Hugo Capeto nomeou Arnulfo como arcebispo de Reims. Arnulfo era, por acaso, sobrinho do rival acérrimo do rei, o duque Carlos de Lorena. Não foi, portanto, surpreendente que o arcebispo Arnulfo se aliasse ao seu tio numa rebelião para derrubar o rei.

O rei Hugo capturou o duque Carlos e o arcebispo Arnulfo. Solicitou oficialmente ao Papa João XV que destituísse Arnulfo do cargo. Envolvido em conflitos políticos internos, o Papa adiou a sua resposta. Ao perder a paciência, o rei Hugo contornou Roma e convocou um concílio local (o Sínodo de Saint-Basle) em Junho de 991. Os bispos franceses destituíram obedientemente Arnulfo por traição e substituíram-no pelo brilhante erudito Gerberto de Aurillac. Ao destituir Arnulfo sem o consentimento papal, a coroa francesa desafiou directamente a supremacia de Roma. João XV viu-se obrigado a fugir de Roma devido à perseguição política. Morreu de febre em Março de 996.

O Papa João XV rejeitou veementemente o Sínodo de Saint-Basle. Em 995, enviou um legado papal, Leão, para presidir a um concílio em Mouzon. Este condenou com sucesso as acções autónomas da Igreja em França e suspendeu Gerberto de Aurillac. O concílio, no entanto, não conseguiu resolver a disputa enquanto o Papa ainda estava vivo. Contudo, estabeleceu um precedente histórico monumental. Marcou uma das primeiras lutas de poder de alto risco entre os reis capetianos e a Santa Sé, lançando as bases intelectuais para a Controvérsia da Investidura, que se prolongou por séculos – uma luta de poder entre a Igreja Católica e os monarcas europeus, principalmente com os imperadores do Sacro Império Romano, sobre quem detinha a autoridade para nomear altos dignitários eclesiásticos, como bispos e abades.

Apesar dos enormes desafios à sua autoridade, o Papa João XV teve algumas realizações notáveis. Efectuou a primeira canonização papal formal e centralizada de que há registo, ao declarar santo o bispo Ulrich de Augsburgo em 993. Na diplomacia internacional, mediou com sucesso um conflito de paz entre o rei Æthelred (Etelredo), o Indeciso, de Inglaterra, e o duque Ricardo da Normandia. Além disso, conseguiu continuar a proteger o monaquismo, em particular os monges reformistas de Cluny.

GREGÓRIO V

(III.V.996 – II/III.999)

Após a morte de João XV em 996, os romanos solicitaram ao imperador Otão III que nomeasse um sucessor. Para contornar as famílias nobres romanas corruptas, Otão III escolheu a dedo figuras estrangeiras leais a si. O imperador nomeou o primo de 24 anos e capelão real, Bruno da Caríntia, que assumiu o nome de Gregório V. Trata-se do primeiro Papa alemão na História da Igreja. “Era erudito e sabia pregar não só em Latim e Alemão, mas também em Italiano, então em fase de desenvolvimento. Era um pouco irascível, mas, no geral, um excelente sacerdote e um bom Papa” (Brusher & Borden, “Popes through the Ages”, pág. 278). Pouco tempo depois, o Papa Gregório V coroou Otão III como Imperador do Sacro Império Romano.

Como era de esperar, os nobres romanos locais, liderados por Crescêncio II, ressentiram-se tanto do jovem Gregório V como do imperador. Pouco depois de Otão III ter deixado Roma e regressado à Alemanha, uma rebelião romana expulsou o Papa Gregório V de Roma e colocou no poder o antipapa grego João XVI, em 997. João era, na verdade, um erudito grego altamente instruído, um antigo chanceler e tutor pessoal de Otão III.

Apoiado pelas tropas imperiais, Gregório V regressou a Roma em 998, reprimindo brutalmente a revolta de Crescêncio II e destituindo o antipapa. A queda de Crescêncio II e do antipapa João XVI, em 998, continua a ser um dos episódios mais violentos e vingativos da história papal medieval.

“No ano seguinte, 998, depois de todas as tentativas de fazer com que Crescêncio e o seu antipapa João XVI voltassem à razão terem falhado, Otão marchou sobre Roma. Crescêncio trancou-se no Castelo de Sant’Angelo; o antipapa fugiu para um castelo no campo. Sem esperar pela chegada do imperador enfurecido, uma facção romana capturou o antipapa, arrancou-lhe os olhos e a língua, cortou-lhe as orelhas e o nariz e confinou-o a um mosteiro. O Papa e o imperador fizeram uma entrada triunfal em Fevereiro de 998. Gregório convocou um concílio que destituiu João do seu cargo de sacerdote. O infeliz mutilado foi então insultado pela multidão e, por fim, mantido num mosteiro pelo resto da vida” (Brusher & Borden, “Popes through the Ages”, pág. 278). Um monge influente, São Nilo de Rossano, implorara ao imperador que tivesse misericórdia e poupasse a vida de João.

Por sua vez, “Crescêncio resistiu obstinadamente em Sant’Angelo, mas, por fim, os alemães abriram caminho à força para o interior do castelo. Crescêncio II foi decapitado nas ameias e o seu corpo atirado para o fosso” (Brusher & Borden, “Popes through the Ages”, pág. 278). Outras fontes afirmam que o cadáver decapitado foi pendurado pelos pés numa forca erigida no topo do Monte Mario, para servir de aviso a quaisquer nobres romanos que ousassem desafiar o domínio imperial alemão.

O Papa Gregório V realizou sínodos (como o de Pavia) para regularizar a disciplina eclesiástica, proteger os bens da Igreja e fazer valer as leis canónicas do casamento perante os governantes seculares. Gregório V condenou o casamento do rei Roberto II de França com Berta da Borgonha, em 996, pois eram parentes consanguíneos.

Seguindo os passos dos seus antecessores, o Pontífice Romano concedeu privilégios e protecções cruciais a numerosos mosteiros em toda a Alemanha e no Império em geral. A razão para esta protecção deve-se ao facto de alguns bispos se preocuparem excessivamente com assuntos mundanos e políticos, o que prejudicava o trabalho dos mosteiros.

Pe. José Mario Mandía