Novo milénio, velhos problemas: Silvestre II e João XVII

SILVESTRE II

(2.IV.999 – 12.V.1003)

O 139.º Bispo de Roma e primeiro Papa francês nasceu em Auvergne (França), no seio de uma família camponesa. O seu nome original era Gerberto de Aurillac. A partir de origens humildes, ascendeu ao estrelato através do seu brilhantismo intelectual e do patrocínio de figuras poderosas.

No mosteiro em França, Gerberto estudou o “trivium” (“Três Caminhos” – as artes da palavra: Gramática, Lógica e Retórica). Mais tarde, em Espanha, dedicou-se ao “quadrivium” (“Quatro Caminhos” – as artes dos números: Aritmética, Geometria, Música e Astronomia). O “trivium” e o “quadrivium” são as sete artes liberais clássicas que formavam a base fundamental da Educação na Grécia Antiga, em Roma e na Europa medieval. Além disso, Gerberto teve acesso ao conhecimento islâmico, o que lhe permitiu aprender ciências avançadas, mesmo que traduzidas de fontes árabes. De igual modo, pôde estudar Filosofia avançada em Reims. Gerberto recebeu, assim, uma vasta e profunda educação cultural e científica.

Por volta de 969 ou 970, Gerberto impressionou o Papa João XIII (965-972) com os seus talentos académicos e matemáticos, levando o Papa a recomendá-lo ao imperador Otão I. Este acabaria por nomear Gerberto para ensinar o filho (o futuro imperador Otão II). Eventualmente, Gerberto tornar-se-ia também o tutor principal do jovem Otão III e confidente do futuro imperador.

Em 987, Gerberto ajudou a projectar a mudança política que colocou Hugo Capeto no trono francês. Em 997, após Hugo Capeto o ter desprezado e lhe ter recusado o Arcebispado de Reims, Gerberto deixou França e partiu para a Alemanha para se juntar à Corte do seu antigo aluno, o imperador Otão III.

Otão III nomeou Gerberto como arcebispo de Ravena em 998 e, posteriormente, trabalhou para a sua eleição como Papa em 999, onde Gerberto adoptou o nome de Silvestre II. O nome escolhido trazia à memória a parceria entre Silvestre I e Constantino, o Grande.

O imperador Otão III e o Papa Silvestre II trabalharam em estreita colaboração para renovar o Império Romano Cristão, embora colidissem ocasionalmente. O forte alinhamento do Papa com Otão III tornou a política papal dependente da Corte Imperial alemã. Isto gerou ressentimento local em Roma. Em 1001, uma rebelião de nobres romanos locais forçou tanto Otão III como Silvestre II a fugir da cidade. Otão morreu em 1002 antes de conseguir restabelecer o controlo de forma permanente, deixando Silvestre politicamente exposto.

O Pontífice trabalhou na reforma do clero. Condenou firmemente a simonia (a compra e venda de cargos eclesiásticos) e o concubinato (membros do clero que mantinham parceiras românticas), lutando por padrões morais mais elevados. Como seria de esperar, tal irritou os nobres e bispos locais corruptos, que ressentiam a perda de riqueza e de controlo.

O Papa Silvestre II conseguiu trabalhar no alargamento do alcance da Igreja na Europa de Leste, estabelecendo arcebispados em Gniezno para a Polónia e em Esztergom para a Hungria, concedendo o estatuto real ao governante húngaro no ano 1000.

No campo da Ciência e do Conhecimento, a fama como matemático e astrónomo ajudou-o a reintroduzir ferramentas matemáticas e astronómicas avançadas na Europa Ocidental, incluindo o ábaco, a esfera armilar e o uso pioneiro dos algarismos hindu-arábicos.

Silvestre II morreu de causas naturais em Maio de 1003, aos 57 anos de idade, após uma curta doença perto do fim do seu Pontificado de quatro anos.

JOÃO XVII

(16.V.1003 – 6.XI.1003)

A morte súbita de Otão III em Janeiro de 1002 destruiu a sua visão de um império cristão universal e desencadeou um declínio acentuado do domínio imperial directo sobre a Igreja Romana. Como vimos, o imperador tinha trabalhado em estreita colaboração com o Papa Silvestre II para reformar o clero e promover a expansão cristã. Silvestre II morreu apenas um ano depois de Otão III, pondo fim à aliança intelectual e espiritual.

Assim que Otão morreu, o seu primo, Henrique II, subiu ao trono. Henrique II preocupava-se mais com a Igreja na Alemanha e com a estabilidade local do que com um império romano-bizantino místico. Vendo a oportunidade, a nobreza romana local preencheu o vazio e recuperou rapidamente o poder. Famílias como os Crescêncio reafirmaram o controlo sobre as eleições papais. O Papado regressou às facções locais romanas e perdeu, por algum tempo, o seu amplo ímpeto de reforma internacional.

João Crescêncio III, um poderoso nobre romano que controlava a cidade após a morte de Otão III, conseguiu a eleição de João Sicco. Este adoptou o nome de João XVII (e não João XVI), demonstrando o quão dependente estava da família Crescêncio. João XVI tinha sido um antipapa imposto no trono em 997 pelos Crescêncio enquanto o verdadeiro Papa, Gregório V, se encontrava temporariamente exilado. Quando o legítimo Papa seguinte, João Sicco, foi eleito em 1003 d.C., também sob o controlo estrito da facção dos Crescêncio, ele ou os escribas romanos mantiveram o antipapa João XVI na sequência numérica, reconhecendo assim a legitimidade do candidato dos Crescêncio ao Papado.

João XVII foi fortemente manipulado ou controlado pelos Crescêncio, possuindo pouca autoridade pessoal durante o seu curto mandato. O breve Pontificado durou menos de seis meses no ano de 1003, não deixando praticamente tempo para acções independentes de relevo ou registos administrativos.

Pouco se sabe sobre João XVII e as suas origens. Sabe-se que antes de receber as ordens sagradas e tornar-se padre foi casado e teve três filhos. Todos os seus três filhos ingressaram no serviço da Igreja, tornando-se eventualmente um bispo, um diácono e um assistente de notários eclesiásticos. (O celibato clerical obrigatório não foi estritamente aplicado ou formalizado até mais tarde, no Século XII).

Praticamente não subsistem registos que detalhem a governação, políticas ou actos oficiais por ele realizados. De acordo com referências históricas, como o Liber Pontificalis, nenhum registo, carta ou detalhe das suas actividades ou projectos administrativos sobreviveram, devido ao pouco tempo que esteve no cargo e ao controlo apertado da família Crescêncio. Uma excepção foi o facto de João XVII ter aprovado uma missão liderada por Bruno de Querfurt para pregar entre as populações eslavas na Europa de Leste. Bruno também solicitou a João XVII que autorizasse o seu companheiro Bento a evangelizar entre os eslavos (cf. Rupert Matthews, 2013. The Popes: Every Question Answered. Nova Iorque. Metro Books. Pág. 122).

Pe. José Mario Mandía