Trinta anos de acolhimento, fé e esperança para as crianças angolanas
A missão da Casa da Criança Santa Isabel, em Angola, revela diariamente o rosto materno da Igreja. Há trinta anos, este lar oferece protecção, cura e esperança a crianças marcadas pela guerra, pelo abandono e por diversas formas de vulnerabilidade. No centro desta obra está a Irmã Domingas Loureiro, cuja vida consagrada transformou-se num serviço incansável aos mais pequenos, tendo criado um lar, escolas e uma comunidade onde a oração, a educação e o afecto abrem caminhos para o futuro. Recentemente, jovens missionários de Macau passaram duas semanas a servir nesta casa, testemunhando a fé das crianças, a força da comunidade e a dedicação da Irmã Domingas e da sua equipa. Hoje, quase duzentas crianças encontram aqui acolhimento e acompanhamento. Nesta entrevista, a Irmã Domingas partilha a origem da sua missão, os desafios de cuidar de crianças feridas pelo trauma e a esperança que a move. As suas palavras recordam-nos que cada criança é um dom confiado ao nosso amor.
O CLARIM – Muito obrigado, Irmã, por nos acolher neste lar e podermos acompanhar as crianças. Pode-se apresentar um pouco e falar do seu compromisso para com as crianças do lar?
IRMÃ DOMINGAS LOUREIRO – Todas as pessoas me chamam de Irmã Domingas porque fui consagrada como Irmã Dominicana de Santa Catarina de Siena. Agora, a minha consagração continua a servir aqui, de maneira mais secular, fora do convento, na Casa da Criança, como se fosse uma leiga consagrada, dedicada a cuidar das crianças. Comecei praticamente em 1993, quando recebi as primeiras crianças, ainda na época da guerra entre o Governo e os rebeldes. Nessa altura havia muitas guerrilhas, e eu estava numa zona de guerra onde havia muitas mortes e muitas crianças abandonadas. Nessa altura, acolhi seis crianças órfãs. Entre estas seis, consegui encontrar os pais de quatro. Quanto às restantes duas, não encontrei os seus familiares. Depois, apareceram mais duas crianças e foram então estas quatro que deram origem à Casa da Criança.
CL – Quando vieram para Viana [município da Província de Luanda], para este prédio da Casa da Criança?
I.D.L. – Viemos para aqui no dia 26 de Outubro de 1996. No passado dia 22 de Agosto celebrámos os trinta anos do início da Casa da Criança. Nesse dia, juntámos os meninos que aqui cresceram, que passaram por esta casa. Vieram e deram testemunho da sua experiência, de como conseguiram formar novas famílias e se projectaram para o futuro. Têm filhos e alguns até netos. Muitos deles há já muitos anos que não se encontravam. Foi também uma oportunidade para que se encontrassem e compartilhassem as suas vidas.
CL – Quantas crianças têm neste momento? Vão à escola?
I.D.L. – Agora temos quase duzentas crianças. Tivemos que criar uma Escola Primária porque as crianças chegam aqui sem documentos e é muito difícil matriculá-las na escola pública. Outras crianças chegam aqui já com dez ou onze anos de idade, e é difícil colocá-las na escola. Então, criámos uma pequena pré-escola até à sexta classe e pretendemos criar outra até à oitava classe. Assim, podemos matricular as nossas crianças em todas as idades. Além disso, temos uma escola em crescimento e uma outra localizada mais distante. No total, temos perto de duas mil crianças nas nossas escolas, que servem também outras crianças vizinhas que não vivem connosco na Casa da Criança.
CL – Ontem vi uma bebé de dois meses na Creche…
I.D.L. – Sim, recebemo-la ontem. Chama-se Elsa. Temos crianças de todas as idades, até recém-nascidos. Esperamos que venham a ser adoptados. Os que não conseguem ser adoptados ficam connosco mais tempo.
CL – Ficámos surpreendidos ao ver que as crianças sabem rezar e participam muito bem na Santa Missa…
I.D.L. – Quando iniciámos a Casa da Criança Santa Isabel, estava eu no Convento das Irmãs Dominicanas e não podia aqui estar. Também não tinha recursos financeiros para pagar a trabalhadores. Era a minha mãe, que aqui ficava, e a minha irmã, que morava perto e ajudava. Elas eram muito religiosas. É por isso que desde o início da Casa da Criança que elas rezam o Terço e participam na Santa Missa. A oração está inserida no dia-a-dia das crianças. No começo, os padres Missionários da Boa Nova vinham-nos sempre visitar e celebravam Missa no nosso lar. Depois, quando a Paróquia passou para os padres Dehonianos, o pároco, o padre Madela, e os outros padres, como o padre Domingos e o padre Amaro, sempre prestaram muita atenção às crianças. Sempre tiveram uma presença muito próxima e afectiva com as crianças, tomando conta das suas necessidades.
CL – De que forma o aspecto religioso ajuda as crianças?
I.D.L. – Percebemos que o aspecto religioso ajuda muito. Quando elas chegam muito traumatizadas, a oração, a reza do Terço e a leitura da Palavra de Deus ajudam muito a superarem os grandes traumas que trazem. Prezamos muito a formação, prestamos muita atenção à Educação e à Saúde. Temos uma equipa de coordenação, uma área de administração, uma área de actividades com os educadores que vêm de fora, e um líder, que é um dos adolescentes da Casa da Criança. Cada criança que chega à nossa casa tem um jovem ou uma jovem que cuida dela como uma irmã ou um irmão mais velho.
CL – O que pretendem para o futuro das crianças do lar?
I.D.L. – Esperamos que sejam bons cidadãos e bons cristãos, como dizia Dom Bosco. Estamos muito orgulhosos de termos duas meninas que saíram do nosso programa e estão a estudar Medicina e dois jovens que entraram no Seminário. Além disso, temos jovens capacitados para diversos trabalhos, para se inserirem na sociedade e continuarem as suas vidas com trabalho para sustentar as suas futuras famílias.
CL – Estamos muito gratos à Irmã Domingas e à sua equipa por nos ter acolhido na Casa da Criança Santa Isabel.
I.D.L. – Sou eu quem vos agradece! As crianças estavam tristes porque a maioria delas não tem família para onde ir de férias e tem que ficar aqui no lar. Nestas duas semanas em que os jovens missionários ficaram com elas, sentiram-se muito felizes por terem tido actividades, jogos, Catequese e por terem participado nas missas; e também pelo carinho e pela atenção de todos vós que vieram de Macau, de tão longe, para estarem com elas.
Pe. Eduardo Emilio Agüero, SCJ

