Giuseppe Castiglione: literalmente, arte diplomática

Giuseppe Castiglione (1688-1766), conhecido na China pelo nome Láng Shìníng, figura como um dos expoentes mais originais e extraordinários do diálogo artístico e cultural entre a Europa e o Extremo Oriente. Pintor italiano e irmão leigo da Companhia de Jesus, Castiglione alcançou um prestígio singular como artista da corte imperial da Dinastia Qing, servindo com mestria inigualável três imperadores consecutivos – Kangxi, Yongzheng e Qianlong – ao longo de mais de meio século de residência ininterrupta em Pequim.

Nascido em Milão a 19 de Julho de 1688, no seio de uma família abastada do Rione San Marcellino, Castiglione revelou, desde muito jovem, uma prodigiosa aptidão para as artes plásticas. Ingressou como aprendiz na oficina do prestigiado pintor barroco Carlo Cornara e frequentou o ambiente artístico milanês, absorvendo os princípios fundamentais do classicismo italiano, o domínio da perspectiva e a técnica do “chiaroscuro”.

Aos dezanove anos de idade, movido por uma profunda vocação religiosa, ingressou na Companhia de Jesus como irmão coadjutor no Noviciado de Génova. Durante os primeiros anos de vida religiosa, dedicou-se à decoração pictórica de capelas e colégios jesuítas em Génova e Coimbra (Portugal), onde permaneceu temporariamente enquanto aguardava o embarque para as missões da Ásia, sob os auspícios do Padroado Português do Oriente.

Em 1715, Castiglione aportou em Macau, a histórica porta de entrada do Ocidente no Império do Meio, de onde prosseguiu quase de imediato para a capital imperial. À sua chegada a Pequim, foi apresentado ao Imperador Kangxi, um monarca de apurada curiosidade intelectual que, embora desconfiado do proselitismo religioso europeu, admirava profundamente as ciências e as artes ocidentais. Kangxi percebeu de imediato o valor do jovem artista italiano e integrou-o na oficina imperial de pintura (Ruyi Guan), no interior da Cidade Proibida. Foi o início de uma simbiose estética sem precedentes: obrigado a adaptar-se aos rígidos cânones estéticos do gosto imperial, Castiglione fundiu a tridimensionalidade, o sombreamento realista e a perspectiva científica do Renascimento europeu com o traço delicado, a tinta da China e os suportes em seda próprios da pintura tradicional chinesa.

Esta síntese visual pioneira, frequentemente designada por estilo “xiyang hua” (pintura de estilo ocidental) ou escola sino-europeia, atingiu o seu apogeu durante o reinado do Imperador Qianlong, de quem Castiglione se tornou o pintor predilecto e conselheiro estético de confiança. O Imperador, apaixonado pela arte e pela celebração da majestade do seu próprio reinado, encomendou-lhe um vastíssimo corpus de obras que incluía retratos oficiais da família imperial, cenas de caça militar, cavalos de raça e plantas exóticas. Entre as suas composições mais célebres, destaca-se a monumental tela “Cem Cavalos” (1728), na qual a vivacidade anatómica europeia harmoniza-se com a atmosfera poética e contemplativa das paisagens tradicionais da Dinastia Qing.

A influência de Giuseppe Castiglione, contudo, extrapolou o domínio da pintura sobre seda e papel. No auge do seu prestígio na Corte, o Imperador Qianlong incumbiu-o, em colaboração com o jesuíta e matemático francês Michel Benoist, de projectar e desenhar os complexos arquitectónicos de estilo barroco europeu (xiyang lou) integrados nos jardins do Antigo Palácio de Verão (Yuanmingyuan). Castiglione concebeu palácios de pedra ornados com colunas e fachadas ao gosto italiano, rodeados por elaborados jogos de água e fontes mecânicas que deslumbraram a nobreza chinesa, erguendo um testemunho monumental do encontro entre a estética versalhesa e o requinte oriental.

Apesar da turbulência política provocada pela “Querela dos Ritos Chineses” e pelo declínio progressivo da tolerância religiosa no Império, Castiglione manteve-se inabalável no seu posto na Corte, tendo recorrido à sua proeminência artística para proteger veladamente os confrades jesuítas e a comunidade católica de Pequim.

Quando faleceu na capital imperial, a 17 de Julho de 1766, a poucas horas de completar 78 anos, o Imperador Qianlong decretou luto oficial, concedeu-lhe pessoalmente o título póstumo de Alto Mandarim de Primeira Classe e custeou do tesouro imperial um sumptuoso funeral. O seu corpo foi sepultado no cemitério jesuíta de Zhalan (Chala), onde a sua lápide em Latim e Chinês atesta até hoje a memória de um homem que, através da beleza e do pincel, construiu uma das pontes mais duradouras entre as civilizações do Oriente e do Ocidente.

Vítor Teixeira

Universidade Fernando Pessoa