André Rudamina: o primeiro do Leste Europeu na China
Andrzej Rudamina (1596-1631) – frequentemente aportuguesado na historiografia do Padroado Português do Oriente como André Rudamina – ocupa um lugar singular e profundamente comovente na história do diálogo entre a Europa e o Extremo Oriente. Oriundo da nobreza polaco-lituana, foi o primeiro missionário vindo das terras do Grão-Duque da Lituânia e da República das Duas Nações a pôr os pés na China, personificando a dimensão multinacional e o fervor ascético que caracterizaram a missão jesuíta do Século XVII.
Nascido em Rudamina, perto de Vilnius, no seio de uma influente família aristocrática do Grão-Ducado da Lituânia, Rudamina recebeu uma educação de excepção. Estudou no prestigiado Colégio Jesuíta de Vilnius e prosseguiu a formação humanística e filosófica nas Universidades de Mogúncia (Mainz) e de Lovaina. Contudo, apesar do futuro promissor que a sua posição social e erudição lhe garantiam na Europa Central, renunciou às mercês da Corte e à herança patrimonial para entrar na Companhia de Jesus em 1618. Movido por um ardor missionário que o impelia para os confins do mundo conhecido, solicitou ser enviado para as missões da Ásia Oriental, partindo para Lisboa, o incontornável centro nevrálgico do Padroado Português do Oriente.
Em 1625, após completar os estudos teológicos na Universidade de Coimbra e receber as ordens sacras em Portugal, embarcou rumo a Goa. A penosa travessia marítima minou irreversivelmente a sua saúde, marcando-o com uma tuberculose crónica que o acompanharia até ao fim dos seus dias. Chegou a Macau em 1626 e na histórica praça-forte portuguesa – verdadeiro seminário de aculturação do Extremo Oriente – Rudamina viveu o habitual período de imersão na língua chinesa e no pensamento confuciano, preparando-se para a entrada no vasto Império Ming.
Apesar da extrema fragilidade física que o acometia, a acuidade mental e o vigor espiritual mantiveram-se intactos. Em 1627 penetrou no interior da China, estabelecendo-se na Província de Fujian, ao lado do prestigiado jesuíta italiano Giulio Aleni. Na cidade de Fuzhou, a actuação de Rudamina distinguiu-se não pela diplomacia de Corte ou pela grande especulação científica, mas por uma acção pastoral intensa, empática e de profunda escuta intelectual. Tornou-se um confessor e conselheiro espiritual muito procurado, tanto pela comunidade cristã emergente local quanto pelos literatos e mandarins chineses fascinados pela síntese entre a filosofia europeia e a moral confuciana.
A sua obra mais marcante resultou precisamente do diálogo com a elite intelectual chinesa. Em colaboração com Giulio Aleni e eruditos chineses convertidos, participou na redacção do Kouduo Richao (“Diário dos Actos e Palavras”), uma preciosa recolha de debates teológicos, morais e científicos mantidos entre os jesuítas e os sábios de Fujian. Paralelamente, traduziu e escreveu em Chinês breves tratados de ascética e exortação espiritual, nos quais abordava temas como a virtude, o exame de consciência e a preparação para a morte, apresentados numa linguagem perfeitamente adaptada aos conceitos filosóficos do Oriente.
A sua entrega esgotou, contudo, as parcas forças que lhe restavam. Consumido pela tuberculose e pelas duras condições da missão no interior da China, André Rudamina faleceu em Fuzhou, a 5 de Setembro de 1631, com apenas 35 anos de idade. Embora a estadia na China tenha sido tragicamente breve – durando pouco mais de quatro anos –, o legado por ele deixado perdurou na memória da missão de Fujian como um modelo de santidade, despojamento e inculturação, deixando o seu nome inscrito como o pioneiro da Europa de Leste na construção de pontes espirituais e literárias entre o Ocidente e o Império do Meio.
Vítor Teixeira
Universidade Fernando Pessoa

