Culto mariano quebra as fronteiras religiosas
A chuva, os transtornos e as previsões de mau tempo não diminuíram a profunda devoção mariana dos fiéis no Paquistão. No passado dia 4 de Setembro começaram as celebrações no Santuário de Mariamabad para a 77.ª Peregrinação Nacional, um pilar da devoção mariana entre os católicos paquistaneses, que terminou a 6 de Setembro.
«Foi profundamente comovente. Apesar das previsões de tempo severo, com fortes chuvas que podiam causar inundações e tornar extremamente difícil para os fiéis permanecerem na área aberta em frente ao Santuário, onde os peregrinos montaram os seus acampamentos, eles permaneceram firmes na fé e no seu profundo vínculo com a Virgem Maria: nada pode separá-los do amor de Cristo», disse à Agência FIDES o padre Qaisar Feroz, OFM Cap, pároco em Lahore e porta-voz da Conferência Episcopal Católica do Paquistão. O sacerdote esteve presente em Mariamabad com a sua comunidade.
Milhares de pessoas provenientes de todas as dioceses do Paquistão viajaram em caravanas de peregrinos: a pé, de bicicleta, de mota, de camião e de autocarro. Foi uma impressionante mobilização de fé em todo o País: as famílias percorreram milhares de quilómetros para rezar a Maria, colocar-se sob o seu manto, confiar-lhe as suas vidas e dificuldades, e implorar graças à Mãe celestial.
Os peregrinos (perto de quinhentos mil) participaram na missa de abertura celebrada pelo arcebispo de Lahore, D. Khalid Rehmat. Entre os participantes também havia muçulmanos e hindus. «Maria atrai o coração de todos», observou, a propósito, o padre Feroz.
A peregrinação deste ano teve também um carácter distintamente “franciscano”, ao assinalar o octocentésimo aniversário da morte de São Francisco de Assis. Os franciscanos no Paquistão lideraram a recitação do Rosário em Mariamabad, tendo utilizado textos e passagens das Fontes Franciscanas, que reflectem o profundo amor de São Francisco de Assis pela Virgem Maria.
«O Rosário foi uma imensa oração pela paz, à qual se juntaram milhares de peregrinos», sublinhou o padre Feroz.
Mariamabad, também conhecida como “Cidade de Maria”, é o santuário mariano nacional mais importante do Paquistão. Situada na província do Punjab, a cerca de oitenta quilómetros de Lahore, a história da cidade está ligada ao trabalho dos missionários capuchinhos belgas e, em particular, à figura do padre Félix van de Putte, o seu fundador.
No final do Século XIX, os missionários capuchinhos no Paquistão aperceberam-se de que os novos convertidos ao Cristianismo, a maioria deles punjabis étnicos pertencentes às camadas mais pobres da sociedade, eram sujeitos a uma severa discriminação, opressão e condições de semi-escravatura por parte dos proprietários locais.
Para libertar estas famílias da pobreza, o bispo capuchinho Emmanuel Van Den Bosch comprou ao Governo britânico cerca de sessenta hectares de terra árida e subdesenvolvida no distrito de Sheikhupura, com o objectivo de estabelecer uma aldeia para cristãos.
Em Janeiro de 1893, três famílias cristãs, acompanhadas pelos missionários, empreenderam uma viagem de seis dias para chegar à nova terra e fundaram uma aldeia agrícola, a que chamaram Maryabad (mais tarde Mariamabad), ou seja, a “Cidade de Maria”.
O padre Félix chegou a Mariamabad em 1896 e tornou-se o seu verdadeiro pilar e construtor. Expandiu a colónia e promoveu o desenvolvimento agrícola, social e espiritual da comunidade. Organizou sistemas de cultivo para que as famílias católicas pudessem finalmente trabalhar as próprias terras, construir casas permanentes e viver do trabalho com dignidade e segurança.
O padre Félix dirigiu também a construção da nova igreja, que foi consagrada a 8 de Dezembro de 1898. Desde então, os fiéis desenvolveram uma profunda devoção à Virgem Maria, rezando o Rosário todos os dias.
Nos anos seguintes, os frades capuchinhos construíram uma gruta semelhante à de Lourdes, em França, colocando uma estátua de Nossa Senhora no topo de uma pequena colina perto da igreja.
Em 1949, Mariamabad foi oficialmente declarado Santuário Mariano Nacional do Paquistão. O local tornou-se também um lugar raro e extraordinário de diálogo inter-religioso, visitado regularmente não só por cristãos, mas também por um grande número de muçulmanos e hindus, que ali honram Maria e procuraram a sua intercessão.
No Islão, Maria (chamada de Maryam) é honrada como a mãe do profeta Jesus (Isa) e é a única mulher que possui um capítulo inteiro com o seu nome no Alcorão. Esta reverência partilhada transforma os santuários marianos em espaços únicos de convivência pacífica.
A presença de Maria está profundamente enraizada na rotina das comunidades católicas locais. Praticamente todas as paróquias católicas do Paquistão possuem uma pequena gruta mariana à entrada. É comum ver fiéis a acender velas, a queimar incensos e a depositar flores aos pés da imagem.
A reza do Terço é cultivada intensamente dentro dos lares. Em momentos de instabilidade política ou conflitos na região, as comunidades unem-se em correntes de oração pelo Rosário, a fim de pedir a intercessão de Maria pela paz nacional.
O ponto central de oração é a já referida réplica da gruta de Lourdes (França), construída em 1927, que ostenta uma estátua da Virgem Maria com 3,5 metros de altura. Recentemente, a arquidiocese de Lahore iniciou a construção de um novo espaço mariano para acolher a multidão crescente de fiéis.
A Virgem Maria é encarada popularmente como uma mãe protectora a quem se recorre em momentos de doença grave, desespero ou infertilidade. O respeito partilhado por Maria ajuda a quebrar barreiras sociais rígidas. É frequente ver mulheres muçulmanas de burca em visita aos sagrados lugares católicos com o intuito de fazer promessas e agradecer pelas graças alcançadas.
Joaquim Magalhães de Castro

